Inspirado nos quilombos históricos e ressignificado como prática política e cultural contemporânea, o “aquilombamento” é um conceito que vai além do espaço físico e se impõe como ato de resistência, acolhimento e afirmação da identidade negra. Representa redes de apoio e luta contra opressões que reúnem não necessariamente apenas pessoas pretas e pardas. Nessa perspectiva de acolhimento, indígenas e outras populações socialmente oprimidas e marginalizadas também podem “aquilombar-se”.
Com base neste conceito, foi estruturada a primeira edição do Congresso de Estudos das Relações Étnico-Raciais da Unesp, que será realizado no câmpus de Presidente Prudente de 4 a 6 de dezembro sob a temática “Entre Sankofa e Tekoha: tecer o futuro com fios ancestrais”, que mistura representações relacionadas a ancestralidades africana e indígena.
O congresso vai ocorrer junto com a quinta edição do Festival Ocupação Preta e a nova edição do Fórum Permanente de Diversidade, Equidade e Direitos Humanos na Universidade. Todos os convidados do congresso são pesquisadores negros ou indígenas, reunidos no evento de modo a valorizar a cultura e cruzar a história e a trajetória dessas populações que formam a sociedade brasileira.
“Temos descrito na história que os quilombos tinham pessoas pretas, pardas, indígenas, a população marginalizada socialmente no período colonial e também aqueles que defendiam a causa. Então, quando pensamos em quilombo, pensamos em nossos irmãos indígenas e também nas populações em vulnerabilidade e marginalizadas socialmente, como a comunidade LGBTQIAPN+. Somos um coletivo que precisa se fortalecer enquanto um quilombo para poder lutar por questões comuns a nós”, afirma a professora Sueyla Ferreira da Silva dos Santos, docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp em Presidente Prudente e presidente do congresso. “Essa aproximação não tem que eliminar as divergências, porque existem questões mais específicas e pontuais para cada um desses coletivos, mas há algo em comum que é o fato de sair da margem e nesse movimento podemos nos unir para lutar juntos”, diz Sueyla Santos.
Além de envolver representações em torno de valores de ancestralidade e enfrentamento a preconceitos, o primeiro Congresso de Estudos das Relações Étnico-Raciais da Unesp será também um marco para duas efemérides: a criação este ano da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (Proade) da Universidade e a celebração dos 25 anos da criação do Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão (Nupe).
“Uma pró-reitoria que trate especificamente da temática consegue ampliar os programas e o escopo de ações que vão tratar da sensibilização e também do fomento a ações extensionistas, de pesquisa e de ensino que abordem diversidade e ações afirmativas para todos que compõem a nossa comunidade universitária”, diz a presidente do congresso.
De acordo com o Escritório de Gestão de Dados da Unesp, o último mapeamento institucional registrou cerca de 5% dos aproximadamente 3.000 docentes da Unesp autodeclarados pretos, pardos ou indígenas –apenas dois professores desse universo se declaram indígenas.
Há um grupo de trabalho formado este ano pela reitora Maysa Furlan para discutir a viabilidade da implementação de ações afirmativas na contratação de servidores, mas no momento não existe na Unesp um sistema de cotas (sociais e/ou raciais) nos concursos para professores, o que contrasta com a adoção do sistema de reserva de vagas para estudantes em vigor há mais de uma década no ingresso para os 136 cursos de graduação mantidos pela Universidade.
“Não podemos esquecer que o Nupe começou com três, quatro pesquisadores que se sentiam pouco representados e com pouco espaço para fomentar esta temática no âmbito da pesquisa e da extensão. Este congresso é fruto de uma caminhada de 25 anos de acúmulo de evidências, pesquisas e produções de intelectuais negros da Universidade”, afirma Sueyla Santos.





