
O Governo de São Paulo deu início em abril do ano passado a uma das maiores ações sociais dos últimos anos: o reassentamento das famílias que viviam na Favela do Moinho, na região central da capital. A ação marca o resgate da dignidade para cerca de 850 famílias que, por décadas, viveram expostas a riscos constantes, desde condições sanitárias precárias, doenças infecciosas e a presença de animais peçonhentos, até o permanente perigo de incêndios, confinadas entre duas linhas de trem e sob a influência do crime organizado.
Situada entre o Bom Retiro e os Campos Elíseos, o local nem sempre foi uma área relegada à própria sorte. Muito antes de ser invadido, ali funcionou por anos um dos marcos da indústria paulista, o Moinho Central.
A fábrica foi inaugurada em 1949, durante a era de ouro da indústria nacional, e chegou a processar 450 toneladas de farinha por dia. O local servia ainda como hub de distribuição ferroviária. O moinho foi desativado nos anos de 1980 e o local permaneceu fechado por anos.

Em 1990, com a desativação da fábrica e a falta de uso da área, começaram as primeiras ocupações familiares. Nos anos seguintes, o processo se expandiu e a Favela do Moinho, como ficou conhecida, chegou a abrigar mais de 1 mil famílias.
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Com as moradias construídas entre duas vias férreas, sem saneamento básico e abrigando moradores em situação de alta vulnerabilidade social, a favela enfrentou surtos de doenças, de animais peçonhentos e a chegada de facções criminosas que passaram a usar o local para distribuição de drogas.
O local foi marcado ainda por dois grandes incêndios, em 2011 e 2012, com dezenas de vítimas, que expuseram a necessidade de buscar uma solução definitiva para os moradores da região.
No entanto, a solução só veio, de forma permanente, com a intervenção do Governo de São Paulo, em 2023, que solicitou ao Governo Federal a cessão da área, abrindo caminho para o plano de reassentamento e para a futura criação de um parque público.
Em agosto de 2024, os técnicos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) fizeram a primeira visita técnica para reconhecimento territorial e início do processo de diálogo com a comunidade para preparar as ações de campo.
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Entre outubro e novembro daquele ano foi concluído o cadastramento das famílias, etapa essencial para garantir atendimento social responsável e transparente. Em 22 de abril de 2025, teve início, oficialmente, o reassentamento voluntário, conduzido com suporte social e técnico da CDHU. Os comerciantes locais foram indenizados pela Prefeitura, em trabalho de cadastro e vistorias apoiado pela CDHU, garantindo que ninguém ficasse para trás na transição.
No dia 7 de maio do ano passado, mais de 100 famílias já tinham deixado para trás a antiga realidade para viverem nas unidades habitacionais disponibilizadas pelo Governo de SP. Além do reassentamento, o Governo de SP fechou uma parceria com o Sebrae-SP para capacitar os moradores e comerciantes, com a oferta de mais de 4 mil cursos de gestão e empreendedorismo.
Em 8 de setembro, foi a vez das autoridades enfrentarem a criminalidade que tomou conta da favela e mantinha os moradores ameaçados e com medo. Em uma ação conjunta, o Ministério Público e a Polícia Militar, dez pessoas foram presas, entre eles Alessandra Moja, irmã de Leonardo Moja, o “Léo do Moinho”, apontado como um dos chefes do PCC no local, preso no ano anterior.
Um ano após o início do programa, 912 famílias já foram reassentadas em moradias dignas e seguras do CDHU e faltam menos de 40 para concluir 100% da retirada dos moradores, marca que deve ser alcançada ainda neste semestre.
Na segunda fase do projeto, a ser iniciada ainda em 2026, começam os estudos para revitalização do espaço, que vai abrigar um parque público linear, com áreas verdes e de lazer, e também uma estação de trem.


