O câncer de pele é o tipo de tumor mais frequente no Brasil e representa cerca de 30% de todos os cânceres registrados no país, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer. Apesar do alto índice de cura quando identificado precocemente, o tempo de espera entre a suspeita da lesão e o tratamento cirúrgico ainda é um obstáculo para parte da população, sobretudo entre pacientes que dependem exclusivamente do sistema público de saúde.
Diante desse cenário, uma iniciativa conduzida pelo dermatologista Matheus Rocha tem oferecido atendimento e cirurgias gratuitas para pessoas diagnosticadas com câncer de pele que não possuem condições financeiras de arcar com o tratamento e que se encontram na fila de espera do Sistema Único de Saúde. A atuação ocorre em Uberlândia, cidade de Minas Gerais, e tem contribuído para reduzir a demanda por procedimentos cirúrgicos que vão do simples aos mais complexos, e que acabam represados no sistema público.
Segundo o médico, muitos pacientes chegam com lesões em estágio inicial, mas já com histórico de meses de espera. “Grande parte dessas pessoas percebe algo diferente na pele, mas demora a procurar atendimento ou enfrenta dificuldade para conseguir uma avaliação especializada. Quando o diagnóstico e a cirurgia acontecem cedo, o tratamento costuma ser mais simples e com excelentes resultados”, afirma.
Os atendimentos priorizam casos em que a cirurgia é indicada de forma imediata, evitando a progressão do tumor e a necessidade de intervenções mais extensas. Entre os pacientes atendidos estão idosos, trabalhadores rurais, pessoas com longa exposição solar e indivíduos que confundiram sinais iniciais da doença com feridas comuns ou manchas benignas.
Além da atuação clínica, a iniciativa também se apoia na formação de outros médicos. Parte do trabalho envolve capacitar profissionais para reconhecer lesões suspeitas, planejar a abordagem cirúrgica e conduzir o tratamento adequado. Para Matheus, ampliar o número de médicos preparados para lidar com o câncer de pele é uma forma indireta de reduzir filas e evitar agravamentos. “Quando mais profissionais sabem identificar e tratar corretamente essas lesões, menos pacientes chegam em estágios avançados. Isso tem impacto direto no sistema de saúde como um todo”, explica.
O projeto é sustentado com recursos próprios, provenientes de programas de formação médica desenvolvidos pelo dermatologista. Parte da receita é destinada exclusivamente ao custeio dos atendimentos e dos procedimentos, sem repasses públicos ou convênios governamentais. “Não há cobrança de honorários médicos pelos procedimentos cirúrgicos. Nos casos em que os pacientes se encontram em situação de vulnerabilidade social, todos os custos são integralmente absorvidos pelo projeto”, afirma. O modelo permite manter a regularidade das cirurgias e o acompanhamento dos pacientes tratados.
A escolha por atuar exclusivamente no tratamento do câncer de pele também chama atenção dentro da dermatologia, área em que procedimentos estéticos ocupam grande espaço. Matheus afirma que a decisão está ligada à percepção de uma demanda crescente por atendimento oncológico cutâneo. “O câncer de pele continua sendo subestimado por muita gente. Ainda existe a ideia de que é sempre simples, mas o atraso no diagnóstico pode trazer consequências importantes”, diz.
A trajetória pessoal do médico ajuda a contextualizar o viés social da iniciativa. Criado em uma família de baixa renda, ao lado de quatro irmãos, ele perdeu o pai ainda na infância e foi criado pela mãe, que trabalhava como empregada doméstica. O acesso à formação médica só foi possível com apoio de terceiros ao longo da sua juventude. “Eu só consegui me formar porque alguém estendeu a mão em momentos decisivos. Hoje, faço isso por outras pessoas”, afirma.
Especialistas em saúde pública destacam que ações desse tipo não substituem o papel do Estado, mas ajudam a aliviar gargalos, especialmente em regiões com menor acesso a especialistas. No caso do câncer de pele, a agilidade no diagnóstico e no tratamento é considerada determinante para o bom prognóstico.
Enquanto o sistema público enfrenta desafios estruturais para atender à demanda crescente, iniciativas independentes voltadas ao tratamento precoce contribuem para reduzir complicações, preservar a qualidade de vida dos pacientes e diminuir a pressão sobre a fila de cirurgias oncológicas.
Sobre o Dr. Matheus Rocha
Dermatologista com atuação em cirurgia dermatológica e tratamento do câncer de pele. Dedica sua prática clínica ao diagnóstico precoce, planejamento cirúrgico e manejo de tumores cutâneos, com foco em dermato-oncologia. Além do atendimento a pacientes, atua na formação de médicos e cirurgiões dermatológicos, contribuindo para a ampliação do diagnóstico adequado da doença. Parte de sua atuação inclui atendimento gratuito a pessoas com câncer de pele que não possuem condições financeiras ou que não conseguem aguardar a fila do sistema público de saúde.





