Setembro volta a colocar a prevenção do suicídio no centro do debate público, mas o desafio ultrapassa a campanha anual. O suicídio é um fenômeno complexo, atravessado por fatores emocionais, sociais, econômicos, familiares, culturais e de saúde. Por isso, a prevenção não se resume a uma mensagem de otimismo: envolve reconhecer sofrimento, ampliar vínculos, reduzir o estigma e garantir acesso rápido a atendimento adequado.
O calendário ganhou status legal no Brasil em 2025. A Lei nº 15.199 instituiu a campanha Setembro Amarelo em todo o país, com ações anuais de prevenção da automutilação e do suicídio. A norma também estabelece 10 de setembro como Dia Nacional de Prevenção do Suicídio e 17 de setembro como Dia Nacional de Prevenção da Automutilação.
Dados oficiais mostram a dimensão do problema. O Ministério da Saúde registrou 15.507 mortes por suicídio no Brasil em 2021, média de uma morte a cada 34 minutos. Do total, 77,8% ocorreram entre homens. O dado é o mais recente consolidado no boletim nacional sobre suicídios e lesões autoprovocadas.
No cenário mundial, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O suicídio está entre as principais causas de morte de pessoas de 15 a 29 anos, faixa em que ocupa a terceira posição globalmente. A OMS destaca que o fenômeno é multifatorial e que a prevenção depende de identificação precoce, acompanhamento, desenvolvimento de habilidades socioemocionais e redução do acesso a meios de alta letalidade em situações de crise
Para a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa, @psicologaluanda, é importante afastar dois equívocos recorrentes: o de que falar sobre suicídio “incentiva” a prática e o de que uma pessoa em sofrimento sempre dará sinais explícitos.
“Falar sobre prevenção de forma responsável não incentiva o suicídio; ao contrário, pode abrir uma porta para a escuta e para o cuidado. Também não existe um sinal isolado capaz de prever uma crise. O que exige atenção é a combinação de mudanças persistentes, sofrimento intenso, isolamento, desesperança e perda de funcionamento na vida cotidiana”, afirma Luanda Rosa.
Sinais que pedem atenção
Tristeza não é sinônimo de risco suicida, assim como uma alteração pontual de humor não confirma uma crise. Ainda assim, mudanças importantes e duradouras no comportamento, sobretudo quando se acumulam, devem ser levadas a sério.
Entre os sinais que podem indicar necessidade de apoio estão:
- Falas de desesperança, culpa intensa, sensação de ser um peso ou ausência de perspectiva de futuro.
- Comentários sobre morrer, desaparecer, não acordar ou “não aguentar mais”.
- Isolamento incomum, afastamento de amigos, família, escola ou trabalho.
- Mudanças marcantes de humor, irritabilidade, agitação ou apatia.
- Perda de interesse por atividades que antes eram significativas.
- Alterações persistentes no sono, no apetite, na energia ou na capacidade de realizar tarefas habituais.
- Uso mais frequente de álcool e outras drogas ou comportamentos de risco.
- Queda abrupta de desempenho, autocuidado ou participação em atividades sociais.
- Organização de despedidas, entrega de pertences ou resolução incomum de pendências.
A presença de um ou mais desses sinais não permite concluir que alguém pretende se matar. No entanto, quando aparecem juntos, representam uma mudança clara no modo habitual de viver ou estão associados a sofrimento intenso, a recomendação é procurar ajuda. O Ministério da Saúde orienta que os sinais não sejam analisados isoladamente e que pessoas próximas ofereçam escuta, acolhimento e apoio para o acesso aos serviços de saúde.
“Em vez de interpretar o sofrimento como drama, fraqueza ou manipulação, familiares e colegas precisam perguntar com cuidado: ‘Você está em segurança?’, ‘Você tem pensado em se machucar ou em morrer?’, ‘Como posso ajudar você a buscar atendimento?’. Perguntas diretas, feitas com respeito, não colocam a ideia na cabeça de ninguém. Elas podem reduzir a solidão e facilitar o pedido de ajuda”, diz a neuropsicóloga.
Como agir diante de uma suspeita
A reação de quem está próximo pode fazer diferença. O primeiro passo não é tentar resolver a dor da outra pessoa com frases prontas, mas criar condições para que ela seja ouvida e acompanhada.
Luanda Rosa recomenda algumas atitudes práticas:
- Escolha um momento reservado, sem pressa e sem exposição, para conversar.
- Demonstre disponibilidade para ouvir, sem minimizar, moralizar, ironizar ou transformar o relato em discussão.
- Pergunte de forma clara sobre a segurança da pessoa quando houver sinais de risco ou falas sobre morte.
- Incentive atendimento com psicólogo, psiquiatra, médico de família, UBS ou CAPS e, se possível, ofereça-se para acompanhar a pessoa.
- Acione familiares, amigos ou pessoas de confiança indicadas por quem está em sofrimento, respeitando a privacidade na medida do possível.
- Não deixe a pessoa sozinha se houver risco imediato ou indicação de plano, meios disponíveis ou intenção de se ferir.
- Em uma emergência, procure UPA, pronto-socorro ou hospital, acione o Samu pelo 192 ou busque atendimento de urgência.
O Ministério da Saúde também recomenda, diante de risco imediato, que a pessoa não fique sozinha e que sejam restringidos, de maneira segura, meios que possam ser usados para autoagressão. O Centro de Valorização da Vida – CVV, oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e 24 horas pelo telefone 188; a entidade também mantém atendimento por chat e e-mail.
Escola e trabalho
A prevenção não deve ficar restrita à família ou aos consultórios. Escolas e ambientes de trabalho podem contribuir ao reduzir situações de isolamento, humilhação, discriminação e sobrecarga, além de criar canais claros de acolhimento e encaminhamento.
“Uma instituição não precisa se transformar em serviço de saúde para colaborar com a prevenção. Ela precisa construir uma cultura em que o sofrimento não seja tratado como falha de caráter. Isso inclui acolher mudanças de comportamento, evitar exposição pública, oferecer espaços de conversa e encaminhar para a rede de cuidado quando necessário”, afirma Luanda Rosa.
No ambiente escolar, episódios de bullying, exclusão persistente, mudanças no rendimento, faltas frequentes e afastamento do convívio devem ser observados com seriedade. A resposta mais eficaz não é punir ou constranger o estudante, mas investigar o contexto, ouvir a família e organizar suporte pedagógico e psicológico.
No trabalho, isolamento, exaustão, faltas recorrentes, mudanças abruptas de produtividade ou conflitos podem sinalizar sofrimento, embora não constituam diagnóstico. Empresas devem oferecer canais confidenciais de escuta, práticas de gestão que não naturalizem sobrecarga e encaminhamento para serviços especializados. A OMS recomenda que a prevenção também envolva ambientes que protejam a saúde mental, como casas, escolas, locais de trabalho e comunidades.
Neurodivergência e cuidado individualizado
A campanha também amplia a necessidade de olhar para grupos que podem enfrentar barreiras adicionais para pedir ajuda. Pessoas autistas e outras pessoas neurodivergentes podem vivenciar sobrecarga sensorial, dificuldades de comunicação, exaustão pelo esforço de adaptação social, experiências de rejeição e problemas de saúde mental associados. Nenhuma dessas características determina risco por si só, mas elas exigem escuta qualificada e suporte adaptado às necessidades individuais.
Uma meta-análise publicada em 2024, que reuniu dados de 10,4 milhões de pessoas, estimou risco relativo de morte por suicídio 2,85 vezes maior em pessoas autistas em comparação com pessoas não autistas. Uma revisão de estudos também encontrou associação entre autismo e maior probabilidade de comportamentos autolesivos e suicidalidade; os resultados, porém, variam conforme idade, presença de transtorno intelectual, condições associadas e contexto social.
“Não é o autismo que explica sozinho uma crise. É preciso considerar a história daquela pessoa, possíveis transtornos associados, vivências de bullying e exclusão, demandas sensoriais, comunicação, autonomia, rede de apoio e acesso a profissionais que compreendam seu modo de funcionamento”, afirma Luanda Rosa.
A especialista destaca que sinais de sofrimento em pessoas neurodivergentes podem aparecer de formas menos reconhecidas socialmente: aumento de crises, retraimento, irritabilidade, exaustão intensa, piora do sono, mudança de rotina, abandono de interesses, queda abrupta na autonomia ou redução da comunicação. A comparação deve ser com o funcionamento habitual daquela pessoa, não com um padrão genérico de comportamento.
O que a prevenção exige
A Organização Mundial da Saúde resume a prevenção em medidas individuais, comunitárias e institucionais: identificar precocemente pessoas em sofrimento, garantir avaliação e acompanhamento, promover habilidades socioemocionais entre adolescentes, qualificar a abordagem da mídia e limitar o acesso a meios de alta letalidade durante crises.
No cotidiano, a prevenção começa antes da emergência: relações em que seja possível falar de dor sem julgamento, acesso a atendimento em saúde mental, escolas e empresas atentas à exclusão, além de famílias que saibam pedir ajuda quando não conseguem lidar sozinhas com a situação.
“Não é preciso esperar uma frase explícita ou uma tentativa para levar o sofrimento a sério. Mudanças persistentes, perda de esperança e afastamento da vida cotidiana já justificam o cuidado. Procurar ajuda não é um exagero; é uma medida de proteção”, conclui Luanda Rosa.
Onde buscar ajuda
- CVV: telefone 188, gratuito e disponível 24 horas; também oferece atendimento por chat e e-mail.
- SUS: Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são portas de entrada para cuidados em saúde mental.
- Urgência: em situação de risco imediato, acione o Samu pelo 192 ou procure UPA, pronto-socorro ou hospital.
Sobre a Luanda Rosa
Psicóloga e neuropsicóloga (CRP 06/106954), especialista em autismo na adolescência e na vida adulta. Atua há 15 anos com avaliação neuropsicológica de adultos, é coautora do livro Protagonismo Feminino e consultora em inclusão de pessoas autistas para empresas. Também participa de podcasts, palestras e eventos sobre autismo na vida adulta e neurodiversidade.





