sábado, abril 4, 2026
Início Destaques no Brasil A “Mijoninia” e o Neymar: O futebol raiz está morrendo engasgado no...

A “Mijoninia” e o Neymar: O futebol raiz está morrendo engasgado no próprio grito?

Quando uma expressão corriqueira como "acordar com o Chico" — usada há décadas para descrever um momento de mau humor — é alçada ao status de crime grave de misoginia, fica claro que a dose está exagerada.

Neymar em ação contra o Remo - X/Santos

Por Ronaldo Aleixo Jornalista e Diretor de Portais de Notícias – Quem vive o futebol desde os tempos em que o rádio de pilha era o único “GPS” do torcedor sabe: o estádio sempre foi o território sagrado da catarse. Ali, entre um gol sofrido e o grito de alívio, a língua sempre foi solta. A provocação pesada, as gírias de vestiário e aquele folclore ácido faziam parte do ingresso. Mas o jogo mudou. E não foi apenas dentro das quatro linhas com o advento do VAR; o jogo mudou na arquibancada e, principalmente, no dicionário.

Recentemente, o episódio envolvendo críticas ao atacante Neymar trouxe à tona uma discussão latente. A expressão “acordar com o Chico” — uma gíria comum nas resenhas de antigamente para definir alguém irritadiço — foi catapultada ao status de crime de misoginia. O caso acende um alerta: o que antes era lido como uma “crítica normal do dia a dia” agora passa pelo crivo rigoroso do Judiciário e das novas leis que regem o comportamento social.

O Peso da Lei no Grito da Galera

Não se trata mais apenas de “mimimi” ou de um suposto patrulhamento ideológico. Estamos diante de um arcabouço jurídico real e operante. A Lei Geral do Esporte (Lei 14.597/2023) e a recente decisão do STF que equiparou a injúria racial ao racismo transformaram o vocabulário do futebol em um verdadeiro campo minado. Termos que envolvem cor, raça, gênero ou origem deixaram de ser “brincadeira de torcedor” para se tornarem passíveis de prisão inafiançável e banimento das arenas.

Gírias como “negão”, “crioulo doido” ou “amarelo”, que em outros tempos ecoavam sem o peso de um processo, hoje são provas materiais de crime. A regra atual é clara, embora amarga para o torcedor da velha guarda: ataque o futebol do jogador, mas nunca a sua biografia ou biologia. Chamar de “pipoqueiro” ou “caneleiro” ainda faz parte do jogo. Contudo, usar uma característica física ou de gênero para desqualificar o atleta é cartão vermelho direto, sem direito a revisão.

A Perda da “Alma” ou a Ditadura do “Politicamente Correto”?

Como jornalista que acompanha a evolução da comunicação digital, vejo um dilema profundo e, confesso, preocupante. De um lado, assistimos a uma higienização forçada dos estádios. As arenas modernas, com seus regulamentos engessados, buscam um ambiente asséptico que mais parece um teatro. O problema é que, nesse processo, a espontaneidade — que sempre foi o combustível da arquibancada — está sendo estrangulada pelo medo. O torcedor hoje vive sob a vigilância constante do celular ao lado, temendo que um desabafo passional viralize e se transforme em um processo judicial ou no famigerado “cancelamento”.

Precisamos falar abertamente: a mão pesada da lei e o patrulhamento ideológico parecem ter perdido o senso de proporção. Quando uma expressão corriqueira como “acordar com o Chico” — usada há décadas para descrever um momento de mau humor — é alçada ao status de crime grave de misoginia, fica claro que a dose está exagerada. O futebol sempre foi o lugar da provocação, da ironia e da “resenha” ácida. Tentar enquadrar cada grito de desabafo no Código Penal não é civilizar o esporte, é tirar a sua alma e a sua essência visceral.

O argumento da civilidade é importante, claro, mas não pode servir de escudo para uma vigilância totalitária sobre a fala do torcedor. Se criminalizarmos cada gíria de vestiário e cada provocação histórica, o que sobrará do futebol? Um espetáculo plástico, sem vida e sem a paixão que move as massas. O limite entre o preconceito real e a simples “corneta” de estádio está ficando perigosamente invisível, e quem acaba perdendo é o espetáculo.

Qual a sua Opinião, Torcedor?

O fato é que o “futebol raiz” está sendo emparedado por uma interpretação rígida e, muitas vezes, desproporcional da lei. A pergunta que não quer calar é: estamos realmente evoluindo, ou estamos matando o esporte mais apaixonante do mundo em nome de uma etiqueta de fachada?

Até onde vai a liberdade de torcer e onde começa o exagero da lei? O torcedor comum, no calor do jogo, ainda tem o direito de ser espontâneo ou virou refém de um tribunal invisível?

O apito final para as gírias de antigamente parece ter sido dado, mas a resistência continua no peito de quem sabe que futebol sem provocação é como jogo sem gol. E você, o que pensa? O futebol finalmente ficou civilizado ou ficou insuportavelmente chato?

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Sair da versão mobile